Entrevista Claudia Cotes
09/06/2011
Entrevista do Mês
Cláudia Cotes
Um mundo para todo mundo. É esse o maior desejo da fonoaudióloga, mestre e doutora em lingüística e mídia, Cláudia Cotes. E foi com esse ideal que ela criou há oito anos a Vez da Voz, ONG que luta pela inclusão da pessoa com deficiência. Nesse mês, o 365 Dias que Acalmaram o Mundo traz mais um ser humano brilhante que mostra que com amor, vontade, respeito e cuidado com o outro podemos mudar as pessoas e o mundo.
Queria começar falando um pouco de você. De onde você é?
Nasci em São Paulo, em 1968, e vivi lá até 10 anos. Mudei para Campinas por causa da saúde do meu irmão, que nasceu com Síndrome de Down, para ele não continuar em contato com a poluição. Chegando lá, meu irmão ficou ótimo de saúde, mas a cidade não tinha escola com qualidade. Então, minha mãe recebeu a seguinte orientação: seu filho Down deve viver no mundo dele. E eu, com 11 anos, me perguntei: mas por que o mundo dele não é o meu mundo?
Estudei Letras e fiz faculdade de Fonoaudiologia. Fiz mestrado e doutorado na parte de mídia televisiva. Comecei a atuar com quemfaz mídia. Trabalho na EPTV, afiliada da Rede Globo, há 13 anos. Em 2003, fiz um projeto de ação social voltado para a inclusão da pessoa com deficiência. Em dezembro de 2004, recebi um telefonema do meu irmão. Ele falou obrigado por um CD e livros com Braille e Libras que eu tinha enviado pra ele, via correio. Isso foi de manhã. À tarde, ele teve uma parada respiratória e morreu. Era o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Descobri porque eu vim neste mundo: para mudar a comunicação e ouvir milhares de “obrigados” de pessoas com deficiência que vivem no Brasil e no mundo.
E como foi a sua infância?
Lindíssima! Fui bem privilegiada porque desde cedo aprendi a brincar diferente. Nada mais puro do que viver com um irmão com Síndrome de Down. Hoje, abraço mais, sorrio sem medo e beijo com carinho e afeto a todos que eu gosto. Sou uma adulta que respeita e cultua a minha criança interior. Por causa do meu irmão, sou um ser humano melhor.
Quais foram as pessoas que te passaram os valores que você tem hoje?
Meu irmão, meu pai, meus amigos e professores e minha psicóloga. Tenho muitos amigos. Sou altamente seletiva nas minhas amizades. Só gosto de gente que tem coração bom. E gosto de “nadar com peixe grande”, ou seja, aprender com pessoas que podem me ensinar e me fazer melhor.
Que valores você quer passar para os seus filhos?
Que a diversidade da vida é essencial para sermos completos. O respeito e a verdade devem ser seguidos, todos os dias. O amor e a compaixão nos tornam nobres e quentes, como seres humanos. E para sorrirem sempre. Todos querem viver com pessoas que são tudo de bom.
Como começou a Vez da Voz?
A ONG Vez da Voz foi criada em 2003, quando comecei a escrever livros de histórias infantis para pessoas com deficiências com um foco diferente. Eu queria que as crianças com deficiência ensinassem para a gente a importância do silêncio, do escuro, o fato de não andar, e acho que essa foi a semente, a peça-chave que começou. Depois disso comecei a pensar que a gente precisava fazer materiais educativos, aí tive contato com vários profissionais de áreas bem diferentes que me ensinaram que naquela época não havia livros em braile para a criança cega nem em língua de sinais para a criança surda, aí fiquei bem indignada e resolvi colocar a mão na massa e fazer. O que era um simples CD que resolvi montar, depois virou um kit e acabou virando projeto de ação social que inclui todas as pessoas com deficiência.
As ações da Vez da Voz são variadas e focam a comunicação, a informação e o atendimento adequado às pessoas com deficiência. Entre as ações, estão a produção de vídeos inclusivos, a elaboração de materiais educativos, oferecimento de palestras e cursos e treinamentos em empresas. Também criamos o primeiro telejornal inclusivo da internet brasileira: o Telelibras.
Queria que você falasse sobre o Telelibras.
O Telelibras é um telejornal inclusivo voltado para qualquer cidadão brasileiro que deseja ser informado por meio de uma comunicação acessível: com audiodescrição, legenda e libras. No Brasil, existem cerca de 6 milhões de surdos e 5 milhões de cegos. São 11 milhões de pessoas praticamente excluídas dos sistemas de informação. O jornal é feito por pessoas com e sem deficiência e transmite as principais notícias do Brasil e do mundo. São jornalistas e apresentadores de diferentes raças (negros, brancos, japoneses) e com diferentes deficiências (Down, cegos, pessoa com baixa visão, surdos, cadeirantes). Todos os programas estão disponíveis para download de graça no site www.vezdavoz.com.br.
Porque você escolheu trabalhar com isso?
Porque amo e respeito as pessoas com deficiência e porque faço parte de um mundo. Por que eu não iria colaborar? Os projetos da ONG são o meu ar e o sangue que corre na minha veia.
Gostaria que você contasse alguma história que tenha te marcado muito na ONG.
Tem uma história belíssima com a Sara Bentes, repórter do Telelibras. A Sara me falou um dia ao telefone: nossa, você viu quanta gente sofrendo com o tsunami? Quantas pessoas sofrem bem mais do que eu, não é? Aquilo me marcou muito. A Sara tinha ficado há poucos meses cega completamente.
Gostaria de terminar a entrevista, pedindo para você perguntar ou falar algo para as pessoas. Para cada um refletir sobre o mundo e o seu papel na sociedade.
Qual é a sua parte neste todo? Você sabe a sua missão? Não? Então, descubra. E siga em frente. Ninguém começa grande. A diferença está em construirmos um mundo melhor a cada dia. Paciência e perseverança. Fundamental para melhorar o mundo, não é mesmo?
Cláudia, muito obrigada e parabéns pelo ser humano que você é.
Obrigado a você e um abraço para todos.

