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ARTIGOS

Vez da Voz entrevista Jairo Marques
05/05/2011

Por Sara Bentes – repórter com deficiência visual
 
A Vez da Voz bateu um papo muito sério e enriquecedor com Jairo Marques, o blogueiro irreverente e jornalista da Folha de São Paulo. Além de diariamente rechear o blog “Assim Como Você” com histórias de seu dia a dia como cadeirante, divulgações, depoimentos e dicas sobre os mais diversos assuntos ligados à diversidade, à inclusão, à acessibilidade e à superação, Jairo mantém uma coluna semanal no jornal impresso, é professor universitário, dentre outras atividades. Sua experiência é vasta e sua postura sempre positiva. É neste clima, de muita consciência e sensibilidade, que ele compartilha conosco sua bagagem. Confira na entrevista abaixo:
 
VV: Como nasceram o “Assim como você” e sua linguagem divertida e atraente? O que o blog significa hoje pra você?
 
Jairo: - As histórias que conto no blog sempre “divertiam” ou causavam indignação nos meus amigos, pessoas mais próximas. Todos insistiam para que eu, de alguma forma, contasse aqueles acontecimentos para outros públicos. Nunca tinha pensado, porém, em colocar isso em curso. Quando a Folha.com começou a criação de blogs feitos por jornalistas da redação, resolvi propor a criação do “Assim como Você”. Achava que, talvez, os assuntos fossem vistos como muito restritos, mas, qual não foi minha surpresa quando a direção do jornal aprovou e adorou a ideia.
 
A escrita num diário que fala de assuntos ainda, de forma errônea, muito ligado a questões médicas, supostamente pesadas e cheias, me desafiava. Eu quis quebrar isso, quis dar uma cara nova para as abordagens e, sobretudo, quis agradar e ganhar novos públicos.
 
Como sou do interior do país, de uma cidade muito pequena, os meus trejeitos, palavreado são mesmo, para alguns, engraçado. Puxei da memória muito do que vivi e vi durante a minha infância e adolescência e espalhei nos textos. Deu certo!
 
VV: Como tem sido o retorno do público em relação à sua coluna semanal na Folha?
 
Jairo: - O retorno é bem diferente do blog. O público é mais crítico e o tempo de resposta para um texto é maior. Contudo, sinto que a aprovação do estilo, que continua meio desbocado, meio engraçado, continua grande, o que me deixa muito feliz. Internamente, aqui no jornal, as pessoas também têm gostado bastante.
 
 
VV: Pra você, a mídia em geral, no seu papel de formadora de opinião, tem ajudado mais a reforçar estigmas em relação à deficiência ou a derrubar preconceitos da sociedade? Ao seu ver, o que ainda falta ser feito para os meios de comunicação se sensibilizarem para os recursos de acessibilidade, principalmente para surdos e cegos? Audiodescrição, sites acessíveis para leitores de tela, legendas, libras etc.
 
Jairo: - Acho que a mídia tem papel fundamental e decisivo para ajudar a melhorar as condições de vida, em todos os seus aspectos, das pessoas com deficiência. Avalio que o espaço destinado a esse debate vem crescendo muito e a qualidade das reportagens também tem melhorado, diversificado. Na Folha, para ficar na “minha casa”, tenho dados concretos desse maior envolvimento com o tema. Mas também é possível ver avanço em diversas outras mídias. Acho que o jornalismo contemporâneo mais tem ajudado do que confundido. Claro que ainda há entraves, matérias mal feitas, mas acho que avançamos um bocado.
 
O que falta para tornar os meios de comunicação para surdos e cegos mais acessíveis, sem dúvida, é informação. Tenho convicção, diante da minha experiência, que muito do que não é feito é fruto da ignorância. Os veículos desconhecem, por incrível que pareça, a abrangência do público com deficiência e também suas necessidades. Então, quanto mais batermos em informação, em divulgação, em cobrança, mais esses aspectos avançam. Recentemente escrevi na minha coluna sobre a audiodescrição num texto chamado “Uma TV para quem não vê”. Recebi vários retornos de pessoas que diziam: “puxa, eu nunca havia pensado sobre isso”. Com a opinião pública mais consciente dos nossos direitos, vai ficar mais fácil.
 
VV: Você acabou de receber na faculdade de jornalismo uma aluna também cadeirante. Como isso te impactou? Do seu tempo de estudante pra cá você vê muitos avanços na acessibilidade das universidades e no preparo do corpo docente para receber alunos com deficiência?
 
Jairo: - Impactou de uma forma que eu não esperava. Por mais que eu escreva sobre esse povo, viva com eles, seja um deles, conheça bastante desse mundo, fui pego no contrapé. Fiquei emocionado com a presença da menina porque aquilo era uma resposta forte, concreta de uma luta que é minha e de todas as pessoas com deficiência, a inclusão em todos os setores sociais. O professor cadeirante dando aula para uma aluna cadeirante. Nas duas pontas do que era tido como “quase impossível” há alguns anos, estávamos presentes.
 
Avalio que a acessibilidade nas escolas e nas universidades saltou um bocado. Quando eu fui universitário, isso há doze anos, rampa era praticamente artigo de luxo. Agora já percebo que as condições são melhores por todo canto. Claro que ainda falta muito, sobretudo no aspecto das relações interpessoais, mas não dá para ignorar os avanços.
 
VV: Na era da informação, é cada vez mais fácil para qualquer profissional pesquisar sobre os assuntos relacionados à deficiência, seja ela qual for. Além disso, promove-se Brasil afora cada vez mais debates, discussões, seminários sobre o tema. Contudo, ainda nos falta tanto para tornar, no mínimo mais natural aos olhos das pessoas, a tão falada inclusão, ou integração, ou como se queira chamar a “dominação do mundo”, como você brinca no blog. Na sua opinião, que setor da nossa sociedade é o mais desinformado e “distante” do assunto? Onde ainda falta derrubar mais barreiras? Na educação? Na cultura? Na comunicação?
 
Jairo: - Essa abordagem é excelente. Acho que o debate precisa se interiorizar. Nos grandes centros, a mentalidade pela inclusão existe e tem ganhado musculatura. No interior do país, ela é um bebê prematuro. E como se contorna isso? Pra mim, precisa começar na escola, precisa que o professor fale sobre respeito às diferenças e sobre convivência com o diverso. É muito recente o fenômeno de os cegos, os cadeirantes, os surdos saírem à rua para enfrentá-la. Então, de certa forma, somos “descobertas” para muita gente. Bombar cada vez mais os aspectos peculiares que envolvem a vida das pessoas com deficiência é fundamental para mudar uma visão arcaica de nós que ainda reside na cabeça de muita gente.
 
 Acessem o blog do Jairo http://assimcomovoce.folha.blog.uol.com.br/

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