Jardim Sensorial itinerante
21/03/2011
Você sabia que simples temperos como alecrim e orégano ajudam a curar doenças, ou que a pimenta influencia o humor? Você sabe o que o manjericão significa para os mexicanos ou para os indianos? Você saberia descrever a textura e a temperatura das folhas e flores de uma calandiva? Quem já teve o prazer de um dia passar pelo Jardim Sensorial Itinerante sabe de todas essas maravilhas e muito mais!
Explorar os sentidos, descobrir sensações e trocas jamais imaginadas, conhecer a natureza de maneiras bem particulares e intensas. Essas são só algumas das oportunidades oferecidas aos visitantes do Jardim Sensorial, que é um circuito itinerante de plantas onde guias com deficiência visual conduzem os visitantes, vendados, proporcionando a eles um contato diferente com flores, folhas, frutos, e com seus próprios sentidos. Com a venda, as pessoas concentram maior atenção no tato, olfato e audição, e até outros tipos de percepções, despertando assim para novas formas de “ver”. Além de experimentar um pouco do mundo da ausência de visão, o público também recebe informações históricas, etimológicas e medicinais sobre cada plantinha que toca, cheira, sente, aprendendo que elas são muito mais que enfeites e temperos.
Para falar sobre o projeto, a Vez da Voz conversou com Shizue Tamaki, educadora ambiental e coordenadora do jardim. Confira na entrevista abaixo:
1 - Como nasceu o Jardim Sensorial Itinerante e quais são seus principais objetivos?
O Jardim Sensorial Itinerante surgiu da necessidade de expandir o projeto para outras localidades e públicos, pois anteriormente o Jardim Sensorial funcionava apenas dentro do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e nasceu, inicialmente, para aproximar a pessoa com deficiência visual da natureza e possibilitar uma interação mais intensa e abrangente. “Não Pise na grama” e “Não toque nas plantas” são regras usuais, mesmo que tácitas nos parques e jardins públicos, o que privilegia o uso da visão em detrimento do exercício de outros sentidos, tais como o tato e o olfato, na exploração e reconhecimento das características das espécies, impedindo que o “deficiente visual”, explore, perceba e desfrute das belezas que o jardim oferece.
O projeto cresceu e hoje o objetivo do Jardim Sensorial Itinerante não é apenas atender ao público com deficiência visual, mas é também convidar o público em geral a conhecer o Jardim de olhos vendados, sendo guiado por uma monitora educadora, cega ou com baixa visão, onde será apresentado a uma diversidade de plantas medicinais, ornamentais e aquáticas, recebendo informações sobre as características, usos, funções e curiosidades de cada uma delas.
2 - O Jardim não é seu primeiro trabalho que envolve pessoas com deficiência visual. Como se deu seu primeiro contato com a deficiência e o que te sensibilizou para trabalhar com este público?
O meu primeiro projeto foi em 2000, na Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre - Programa Educativo/ Acessibilidade para alunos cegos da rede pública de ensino.
Comecei a observar a necessidade de inclusão de deficientes visuais no mercado de trabalho. E o Jardim Sensorial, com a proposta de empregar monitoras com deficiência visual, promove uma experiência diversificada de educadora social e ambiental, possibilitando ainda o contato dessas profissionais com pessoas de todas as idades, classes, etnias, credos, facilitando a inclusão, aproximando diferentes realidades e sensibilizando o público para as questões da deficiência.
3 - Quem é o público do jardim sensorial itinerante e quais os locais mais adequados para sua instalação?
O público principal são os alunos, moradores e freqüentadores daquele lugar onde o Jardim Sensorial se instala. Crianças de qualquer idade, profissionais de todas as áreas, bem como pessoas com qualquer tipo de deficiência se beneficiam da visita, gratuita, ao Jardim Sensorial Itinerante.
A escolha do espaço é fundamental em dois aspectos: acessibilidade e transporte (ônibus e metrô), facilitando a chegada do público e da equipe de profissionais do projeto.
4 - O contato com as plantas, com a terra, com os tão diferentes aromas, cores e texturas das flores, mexe bastante com as pessoas; se este contato, já tão intenso, for então com os olhos vendados, infinitas novas sensações também podem surgir. Qual a história mais incrível que você presenciou no jardim com relação às emoções das pessoas?
O projeto Jardim Sensorial atendeu aproximadamente 70.000 pessoas desde sua criação no Jardim Botânico. Já tivemos diversas histórias; algumas delas são as surpresas que as pessoas têm quando percebem, muitas vezes ao final do trajeto, que as monitoras são cegas. As pessoas iniciam o percurso já vendadas, e não vêem quem as está guiando. Quando percebem que suas guias estão em sua mesma condição, sem a visão, muitas chegam a chorar, fazem mil perguntas à monitora sobre a deficiência, revêem seus conceitos e os conceitos pré-concebidos da sociedade. Essa surpresa tem sempre um efeito positivo.
Outra situação que emociona são as crianças que se encantam tanto com a visita que voltam muitas vezes, trazendo hora o pai, hora a avó, hora o irmão, e acabam envolvendo a família e os amigos no amor pela natureza e na aceitação do diferente.
Muitas vezes quem se emociona é a própria monitora, quando guia, por exemplo, pessoas com outras deficiências. Se ela guia uma pessoa tetraplégica, que, naquele momento, fica também cega, por conta da venda, ela precisa fazê-la tocar as plantas, como faz com todo o público. Mas como, se o tetra não tem a sensibilidade no corpo?
Então a guia leva cada textura, cada folha e flor até seu rosto, onde existe o tato. E as soluções e interações que se fazem entre as diferentes condições do ser humano é algo muito bonito de se ver e de se descobrir. Além disso, todos costumam sair satisfeitos e levam para a casa algo além do aprendizado sobre as plantas, além dos perfumes nos dedos e do frescor nos pulmões. E dar este algo a mais às pessoas é nossa alegria!

