11/02/2011
Os veículos de comunicação estão diante de vários desafios. Um deles é produzir material que chegue às pessoas com deficiência, um contingente, no país, de 24 milhões de brasileiros. Mais do que isso: disponibilizar, com qualidade, ferramentas de acessibilidade.
Ao mesmo tempo, reportagens costumam tratar pessoas com deficiência por meio de estereótipos, como os heróis ou os fragilizados. Esse tipo de abordagem não contribui para o avanço necessário aos rumos da inclusão e da acessibilidade no Brasil.
As opiniões são da jornalista e radialista Roberta Lage, da organização “Vez da Voz”, de Campinas. A organização é responsável por várias inovações na área, notadamente na comunicação com seus públicos. Produziu o primeiro telejornal inclusivo da internet e da televisão brasileira, o Telelibras.
Ainda gerou a Rádio em Libras, fruto de uma parceria com a rádio CBN, que traduziu para a Língua de Sinais conteúdo de programa radiofônico. O material pode ser visto no site www.vezdavoz.com.br. A presidente da entidade, Cláudia Cotes, foi finalista da edição de 2009 do prêmio Empreendedor Social, instituído pelo jornal Folha de S.Paulo.
Via e-mail, Roberta contou a ação da “Vez da Voz” e como a comunicação ajuda neste trabalho. Na foto, divulgada pela organização, ela está ao lado de Fabiano Campos, apresentador do “Telelibras”.
Comunicação & Negócios – Conte-nos sobre a “Vez da Voz”.
Roberta Lage - Criada em 2004, a Vez da Voz é uma OSCIP que luta pela inclusão da pessoa com deficiência. No Brasil, 24 milhões de pessoas precisam de acessibilidade em diferentes áreas, inclusive na comunicação.
Com representantes em São Paulo e Campinas, a Vez da Voz é formada por profissionais com e sem deficiência. São jornalistas, fonoaudióloga, psicóloga, pedagoga, estudantes, artistas, intérpretes e assessores da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), audiodescritora, editor, cinegrafista e webdesigner, que criam formatos inclusivos para a mídia.
As ações da Vez da Voz são variadas e focam a comunicação, a informação e o adequado atendimento à pessoas com deficiência.
Dentre as ações desenvolvidas estão a produção de vídeos inclusivos, com narração, Língua de Sinais, legenda e audiodescrição, a elaboração de materiais educativos, oferecimento de palestras, cursos e treinamentos em empresas, além de apresentações artísticas.
A Vez da Voz também produz o primeiro telejornal inclusivo da internet e da televisão brasileira: o Telelibras, que mostra a diversidade racial entre os jornalistas, tem intérpretes de LIBRAS ao lado do apresentador e ainda conta com uma equipe de repórteres com deficiência. Todos informam o que acontece no Brasil e no mundo. Qualquer cidadão brasileiro pode se informar, inclusive o público surdo, que pouco entende a Língua Portuguesa e se comunica em LIBRAS, uma língua que não é universal, e que tem uma estrutura gramatical própria.
A Vez da Voz existe para dar voz para quem não tem vez. Na internet, os vídeos são semanais e gratuitos para download.
C&N – Como a comunicação é vista dentro dos objetivos da entidade?
Roberta – A comunicação é um dos principais fatores do processo de inclusão do ser humano e significa participação, convivência e socialização. A limitação ocasionada pela deficiência auditiva ou visual acarreta alterações nos aspectos cognitivo, social, emocional e educacional. Ter acesso a todo tipo de comunicação faz com que as pessoas com deficiência possam ser incluídas na sociedade e, dessa forma, tenham acesso a um dos mais importantes direitos, que é o direito à informação.
A comunicação é um dos principais pilares da Vez da Voz. É para que ela de fato aconteça que trabalhamos. O nosso foco é a mídia acessível, ou seja, aquela que fala, da forma correta, com as pessoas com deficiência visual e auditiva. Produzimos livros, organizamos oficinas de braile (sistema de leitura com o tato para cegos) e vídeo-aulas de Língua de Sinais (LIBRAS). Hoje, o produto principal da Oscip é o Telelibras, que oferece, além da LIBRAS, a legenda (para o deficiente auditivo que não compreende a LIBRAS) e a audiodescrição (descrição narrada das imagens que aparece no vídeo, para as pessoas com deficiência visual).
Inovamos também ao criar, em 2010, a Rádio em Libras, fruto de uma parceria firmada com a rádio CBN. Traduzimos para a Língua de Sinais, o conteúdo do boletim Cidade Inclusiva SP, com o advogado tetraplégico Cid Torquato. Os vídeos são disponibilizados no Portal da CBN e da Vez da Voz.
Todos têm direito à informação e comunicação. Isso é o que garante a Constituição Federal de 1988 e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E é por uma mídia inclusiva e acessível que trabalha a Vez da Voz.
C&N – Como a área da comunicação é estruturada na instituição?
Roberta – Nossa equipe, entre outros profissionais, é formada por jornalistas, fonoaudióloga, webdesigner e cinegrafista/editor. Os jornalistas alimentam o site de informações, fazem reportagens externas e em estúdio e escrevem textos para o Telelibras. A fonoaudióloga, que é a presidente da ONG, Cláudia Cotes, acompanha e orienta os jornalistas nas gravações para que tenham postura, boa pronúncia e dicção adequada. O diferencial é que damos o microfone na mão das pessoas com deficiência, que se transformam em repórteres e apresentadores.Os intérpretes de Libras e a audiodescritora também integram a equipe de comunicação.
C&N – Há voluntários na área da comunicação, ou hoje já se tornou um setor profissionalizado?
Roberta – Trabalhamos com voluntários somente no início dos projetos. Hoje, os integrantes recebem pelo trabalho quando contratos são fechados com empresas ou quando há patrocínio. Desde 2010, contamos com o apoio da Medley e por isso os profissionais recebem pelo trabalho. A idéia é fazer com que o setor se profissionalize ainda mais com o tempo.
C&N – Como você avalia a qualidade dos profissionais formados pelas faculdades que chegam para atuar na área? Eles estão preparados para atuação em assessoria de imprensa, e mais, em uma entidade desse tipo?
Roberta – Acredito que no período de formação universitária os estudantes deveriam ser colocados em contato com o mercado de trabalho de forma mais constante. Estágios supervisionados e remunerados poderiam estar mais presentes no currículo escolar. Para isso, as instituições de ensino deveriam investir em parcerias com órgãos de imprensa e outras instituições que tenham área de comunicação. Não posso te afirmar se os estudantes estão preparados depois de formados para atuarem especificamente em assessoria de imprensa. Acho até que eles têm noção, mas aprendem, de fato, na prática, como em qualquer outra profissão.Para atuação em entidades não percebo, nas universidades, uma atenção com o Terceiro Setor, tanto que procurei um curso de pós-graduação para me especializar. De forma geral, observo que são poucos os alunos prontos para o mercado. Ainda vejo nos textos muitos erros de português, concordância, vejo falta de iniciativa e de postura profissional.
C&N – Como os públicos interno e externo da instituição vêem as ações comunicativas? Há uma medição de resultados a cada iniciativa? Quais dão melhores resultados…
Roberta – Recebemos muitos e-mails de internautas – que elogiam as iniciativas e tiram dúvidas, de famílias – que nos escrevem para contar suas experiências, de pessoas com deficiência – que sugerem pautas para o Telelibras – e de estudantes – que querem conhecer melhor nosso trabalho. Recentemente recebemos um e-mail de uma mãe de um surdo de uma aldeia indígena, que queria mais informações sobre deficiência auditiva. Enviamos várias informações e livros.
O acesso ao nosso site tem aumentado. Hoje são 25 mil acessos mensais.
Também fazemos pesquisas sobre nossos produtos. Um exemplo: atualmente está no ar uma pesquisa para saber a opinião dos internautas sobre o Telelibras. Recebemos um retorno fantástico de idéias e sugestões.
A equipe interna se reúne constantemente para avaliação das atividades, treinamento jornalístico, orientações de postura diante das câmeras, noções de LIBRAS e de audiodescrição.
C&N – Como avalia o tratamento dado pelos veículos de comunicação às pessoas com deficiência?
Roberta – Infelizmente a mídia ainda não está preparada para ser acessível ou falar de acessibilidade. Faltam preparo, informação e conhecimento. Os problemas mais comuns estão relacionados ao uso inadequado das terminologias e ao oferecimento de recursos de acessibilidade sem qualidade. O closed caption, quando oferecido, não traduz corretamente todo o pensamento ou é transmitido em velocidade rápida. Não há audiodescrição. O foco de algumas reportagens também mostra, muitas vezes, as pessoas com deficiência como heróis ou “coitadinhos” e eles não querem esses estereótipos.
No entanto, apesar dessas dificuldades, acredito e já vejo sinais de que a tendência da mídia é a de se adaptar para oferecer recursos de acessibilidade com mais qualidade para, desta forma, fazer cumprir o que rege nossa Constituição e conquistar novas audiências.
Seremos bons o suficiente quando fizermos comunicação para todos. Assim que a “Vez da Voz” produz os materiais educativos.
http://comunicacaoenegocios.wordpress.com/

