Vida Independente
10/09/2010
Na verdade, impossível começarmos a falar e entender sobre Desenho Universal sem contextualizá-lo no tempo e no espaço. Assim, é fundamental conhecermos o surgimento do Independent Living Movement, ou Movimento de Vida Independente, que gerou uma revolução conceitual com impacto real na melhora da qualidade de vida de, no limite, toda a população do planeta.
O conceito de Vida Independente é peça chave no cenário da acessibilidade. Na década de 60, na cidade de Berkeley, Califórnia, Estados Unidos, Ed Roberts e mais sete companheiros, todos com deficiência física, ficaram conhecidos como o grupo dos “Rolling Quads” (ou “Tetras Rolantes”, por terem sérias limitações motoras e se locomoverem em cadeiras de rodas motorizadas). Lembre-se que os Rolling Stones eram sucesso nessa época, daí a brincadeira. Eles fundaram o primeiro Centro de Vida Independente, que impulsionou todo o movimento pela inclusão social das pessoas com deficiência e, na realidade, por tabela, dos idosos e de todas as pessoas que, de uma forma ou de outras, se encontram alijadas socialmente em razão da falta de acessibilidade física a locais públicos, serviços e produtos básicos.
Berkeley, Califórnia, anos 60… Movimento hippie, paz e amor… Eles viviam no epicentro de um dos momentos mais libertários da história da humanidade e, se todos podiam questionar o status quo, por que não esse ‘bando’ de cadeirantes?
Um de seus principais objetivos era, justamente, libertar-se da tutela imposta pelas entidades ligadas ao segmento, que, em grande medida, ainda tratavam as pessoas com deficiência como… ‘deficientes’, isolando-os, segregando-os, escondendo-os, sem desejos ou opiniões, submetidos às decisões de seus pais, médicos e cuidadores. Para tanto, deram início a uma nova filosofia de vida, com os seguintes valores e princípios:
- são as pessoas com deficiência que devem saber e decidir o que precisam para ter melhor qualidade de vida;
- suas necessidades variam, como as de qualquer ser humano, e, por isso, devem ser atendidas por uma variedade de serviços e equipamentos adequados;
- a tecnologia assistiva, as ajudas técnicas, podem significar a diferença entre a dependência e a independência;
- as pessoas com deficiência devem viver com dignidade, integradas em suas comunidades;
- a cidadania não depende do que uma pessoa é capaz de fazer fisicamente, mas, sim, das decisões que ela puder tomar por si só;
- a pessoa com deficiência é que deve ter o controle e estar no comando de sua situação;
- a autodeterminação, a autoajuda e a ajuda mútua são processos que permitem que as pessoas com deficiência possam controlar suas vidas;
- a integração entre pessoas com diferentes deficiências facilita a integração entre pessoas com e sem deficiência;
- Vida Independente é um processo em que cada agente é responsável por moldá-la e mantê-la, e não um produto pronto para ser consumido indistintamente por diversos tipos de usuários.
Nas sábias palavras do Dr. Adolf Ratzka, uma referência nesta temática, “Vida Independente não significa que nós queremos fazer tudo sozinhos, que não precisamos de ninguém ou que gostamos de viver em isolamento. Vida Independente quer dizer que nós demandamos as mesmas escolhas e controle de nossas vidas, como nossos irmãos e irmãs, vizinhos e amigos sem deficiência.
Queremos crescer entre nossos familiares, frequentar a escola do bairro, usar o mesmo ônibus, trabalhar em empregos compatíveis com nossa educação e nossos interesses, bem como criar nossas próprias famílias. Somos pessoas normais, que compartilhamos as mesmas necessidades de nos sentirmos incluídos, reconhecidos e amados”.
E completa, com ainda mais propriedade: “Enquanto considerarmos nossas deficiências como tragédias, seremos tratados com dó; enquanto tivermos vergonha de quem somos, nossas vidas serão consideradas inúteis; enquanto nos mantivermos em silêncio, os outros nos dirão o que fazer”.
A partir destas idéias e práticas, eles se integraram na vida do campus, da universidade e da cidade, principalmente após convencerem a prefeitura local a construir as primeiras guias rebaixadas do mundo, usando como plataforma o lançamento de um programa universitário especialmente concebido para alunos com deficiência. Na sequência, o movimento se espalhou, com a criação de Centros de Vida Independente pelos Estados Unidos e pelo mundo, inclusive no Brasil.
Nesse sentido, construir um ‘mundo’ acessível é melhor e mais seguro para todos, mas seus custos são questionados. Entretanto, o que se observa na prática é exatamente o contrário, já que é mais caro adaptar o que não foi construído de forma acessível, além do que nem sempre é possível acessibilizar o que não foi concebido como tal.
Por isso é importante criarmos uma cultura e praticarmos o Desenho Universal para que as pessoas, todas as pessoas, possam desfrutar da vida, com mais ou menos independência, de acordo com suas capacidades, habilidades e, primordialmente, de suas vontades e decisões.
Leia também: Universalizando o Desenho Universal
Por Cid Torquato
Fonte: http://colunistas.yahoo.net/posts/4816.html

