Nota de Falecimento
30/08/2010
O Jornalista José Luís Datena, escreveu o artigo "Nota de Falecimento", em que faz uma análise e uma comparação de suas atitudes diárias e da força de vontade dos atletas paraolímpicos. O texto foi publicado no jornal Metro de Campinas, no dia 30 de agosto.
Descobri que morri! Na verdade, estou mortinho da silva, faleci sem ser enterrado há uns dez anos. Quando você chegar a esta palavra, vai achar que, além de morto, estou louco. Calma aí, eu vou explicar! Nesse tempo todo, engordei uns 15 quilos, quase não ando, nem mesmo dentro de casa. Quando quero um copo d’água, grito bem alto: “Tidêêê!” Ah, só para você saber, Tide é o apelido da minha amada esposa, com quem sou casado há 33 anos. Para mudar o cardápio, é só colocar, no lugar da água, café, pão... O grito é sempre o mesmo – para o azar dela e de quem pede também. Coitada!
Mas, agora você pergunta: como é que esse cara sabe que está morto? Será que é por não andar pra valer, igualzinho ao trânsito de São Paulo? Devagar, quase estacionado, cheio de buracos e, de vez em quando, com tanta dor pelo corpo que parece atropelado.
Fique tranquilo, não estou louco. Quero dizer, nem mais nem menos. Para seu alívio, vou informá-lo como descobri que sou um espírito vagando por aí, tal qual nas memórias póstumas daquele clássico do Machado de Assis.
Num fim de semana, desses de folga que até defunto tem direito, liguei a televisão (com o controle remoto, é claro) e comecei a assistir a um dos maiores eventos esportivos que já vi na minha vida – quando estava vivo, certo? Muito mais do que um evento esportivo, uma lição de vida: o Pan Pacífico Paraolímpico. Gente com todo tipo de limitações físicas e psicológicas nadando, mesmo sem braços ou pernas, com uma velocidade incrível. São heróis, titãs olímpicos!
Fiquei tão emocionado que minhas lágrimas se misturaram com as águas daquela piscina. Ficou bem claro que deficiência física ou psicológica nada tem a ver com essas pessoas. Nós – que nos achamos perfeitos, que não movemos um dedo para alimentar nossos corpos, nem mentes, comprometendo nossa saúde entupindo nossas veias com um monte de gordura, enferrujamos nossos músculos pelo desuso total – é que devíamos avaliar o que significa realmente qualidade de vida.
Resumindo: não adianta viver muito e mal.
Portanto, faça o que eu vou fazer: saia da cova e volte a viver de verdade. É isso o que a gente aprende com nossos atletas paraolímpicos ou outros milhões de seres especiais que têm por aí vivendo com transporte coletivo inadequado, em cidades cheias de escadas, sem guias rebaixadas ou rampas que transformam o cotidiano de todos eles numa eterna competição.
Ei, acorde! Vale a pena viver.
Fonte: Jornal Metro de Campinas
Autor:José Luís Datena

