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Fonoaudióloga promove inclusão pela literatura A fonoaudióloga Cláudia Cotes gosta de dar voz a quem não a tem. Não que faça milagres, distribuindo a fala para os mudos. Mas, nos últimos cinco anos, ela tem se dedicado a levar para as páginas dos livros infantis crianças que não enxergam, outras que têm síndrome de Down ou então aquelas que precisam viver no mundo em silêncio, sem poder ouvir. Ao lado de suas atividades profissionais, Cláudia já escreveu e publicou dez livros, nos quais os personagens não são seres encantados, envolvidos pela magia dos contos de fadas. Crianças deficientes tornam-se personagens, ganham voz, transmitem seus sentimentos em histórias positivas, que misturam realidade e ficção para demonstrar a possibilidade de ser feliz, mesmo com limitações. Tudo isso com o objetivo de possibilitar que uma fatia de leitores, muito pouco representada, se identifique nas tramas. "Temos milhares de títulos no mercado, mas as crianças com deficiência não se vêem nessas obras" , argumenta. Nas histórias criadas por ela, quem anda de cadeira de rodas, por exemplo, também pode dançar, quem é surdo consegue ouvir a melodia de uma música pela vibração que o chão faz ou quem tem uma doença incurável, como a Aids, pode perceber que a vida pode ser muito maior do que um vírus. Cláudia, que hoje se divide entre um consultório em Campinas e outro na Capital, sempre conviveu de perto com as deficiências. Seu irmão, Paulo, já falecido, tinha síndrome de Down. "Tudo isso também é uma forma de homenageá-lo" , conta. Mãe de uma garota, Carol, de 10 anos, foi num churrasco de confraternização, na época em que ela trabalhava no Instituto Penido Burnier, especializado em otorrinolaringologia e oftalmologia, que surgiu o desejo de escrever para públicos tão pouco vistos na literatura. "Um médico, que tem uma filha surda, pediu que eu levasse a minha filha para brincar com a dele. A partir daquele momento, fiquei imaginando como contar à Carol que ela brincaria com uma criança que não poderia ouvi-la" . História Diante desse impulso, Cláudia retomou um desejo do passado: chegou a cursar letras, porque queria ser escritora. "Imaginei que, se contasse uma história para minha filha, ela entenderia tudo mais fácil" . Com a percepção de que havia dado o passo certo, ao ver a brincadeira fluir entre as duas, Cláudia notou que, por aí, havia muita gente precisando de histórias para perceber as diferenças. A narrativa contada para a filha se tornou O Som do Silêncio, livro que narra a história de uma garota que ensina os colegas a importância de perceber o valor dos momentos sem som. A obra foi lançada em 2003 e depois acabou se tornando um curta-metragem. Dificuldades Desde então, Cláudia já criou mais de 30 histórias, mas só conseguiu publicar um terço delas. "As editoras evitam falar sobre esses assuntos. É sempre uma luta colocar numa livraria um livro que trate de deficiências" . Tanto que, com exceção de alguns títulos, lançados pela Editora Paulinas, os demais são todas publicações bancadas por ela ou em pequenas editoras, que dificilmente chegam à maioria das livrarias. "É incrível, por exemplo, que num mundo em que é possível ter acesso a tantas línguas, uma criança cega não possa comprar um livro, porque são poucas as publicações em braile" , conta. Não por acaso, uma garota que não enxerga é a personagem de uma das principais obras de Cláudia. No livro Dorina Viu, ela conta a história de Dorina Nowill, fundadora da principal entidade de apoio a cegos e da maior editora de livros em braile do Brasil. Lançado em 2006, o livro tem todos os textos e imagens transcritos para a linguagem dos cegos. Publicações Uma das histórias que Cláudia mais teve dificuldade para publicar foi Menino Sorriso, em que aborda a trajetória de um garoto que nasceu com lábio leporino. "As editoras preferem não tocar no assunto. Não há a percepção de que essas crianças também precisam se ver nos livros e que, para aqueles que não têm nenhuma deficiência, trazer os temas nos livros infantis é uma forma de ensinar a solidariedade" , afirma. No ano passado, a morte também foi o tema de dois livros. Em A Voz da Estrela, ela conta a história de Cazuza e da instituição fundada pela mãe dele, Lucinha Araújo, para atender crianças com Aids. Além disso, em Juliana Pra Lá de Bacana, ela narrou a história de uma paciente com câncer, internada no Centro Infantil Boldrini. Esses dois títulos foram lançados com apoio da Fundação Educar DPaschoal. Agora, Cláudia acerta os últimos detalhes do livro Dança Down, que será lançado na bienal de São Paulo, em agosto. SAIBA MAIS: O interesse na inclusão de pessoas com deficiência fez com que Cláudia criasse, em 2004, a organização não-governamental (ONG) Vez da Voz, fundada em Campinas, mas hoje com sede em São Paulo. A entidade promove cursos de capacitação e palestras, realiza eventos que incentivem a inclusão e produz materiais que garantem a acessibilidade aos deficientes. Um dos principais projetos é o TeleLibras, primeiro telejornal, veiculado na internet, para deficientes auditivos. O site da entidade é www.vezdavoz.com.br. Fabiano Ormaneze Da Agência Anhangüera fabiano.ormaneze@rac.com.br |
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